Aprender com os nossos erros é um claro sinal de amadurecimento. E isso também acontece no mercado automotivo. Depois de reinar absoluto e de ver o seu protagonismo ser despedaçado, o novo Ford EcoSport 2018 promete voltar a brigar, a partir de agosto, pela liderança do segmento.
A Ford tinha um produto bem definido, fácil de comprar, que dominou a categoria por muitos anos. Ele evoluiu e continuou brilhando. Aí chegaram os concorrentes, mais modernos e equipados. A solução da marca do oval azul foi matar a simplicidade do EcoSport pare tentar se manter na ponta.
Mas a estratégia deu errado e a “confusão” a uma grande aposta da companhia colocaram quase tudo a perder. Entenda.
Confusão de motores do EcoSport
A Ford passou a equipar o EcoSport, numa versão, com o motor 1.6 16V Sigma que desenvolve 110/115 cv de potência e 15,7/15,9 mkgf de torque. Em outro acabamento, também com o mesmo propulsor, o rendimento era diferente: 126/131 cv e 15,4/16,1 mkgf.
Se não bastasse o 1.6, o mesmo aconteceu com o 2.0 16V Duratec: numa versão, o EcoSport gerava 140/147 cv e 18,9/19,7 mkgf. Em outra, o modelo tinha 141/147 cv e 19/19,7 mkgf.
Ou seja, o consumidor não sabia exatamente qual era a potência e o torque do seu EcoSport.
Aposta que deu errado: câmbio do EcoSport
Outro problema do carro era o seu câmbio automatizado Powershift de dupla embreagem. Moderno e promissor, ele virou uma fonte inesgotável de reclamações. Basta fazer uma rápida pesquisa na internet para perceber.
Não adiantou consertar os principais defeitos e ampliar a garantia da transmissão para 10 anos. O filme já estava queimado demais.
Recomeço no Brasil
Finalmente, para todos os fãs do SUV, a Ford tomou juízo e resolveu, aparentemente, simplificar novamente as coisas, apostando em soluções mais interessantes para o mercado brasileiro.
Uma das mais importantes é o fim do Powershift para o EcoSport, que passará a adotar um câmbio automático tradicional, de seis velocidades, com direito à paddle shift atrás do volante – no lugar dos pessimamente localizados botões na alavanca de transmissão.
Motores “resumidos” e melhores
Os motores também ficaram mais modernos, eficientes e “resumidos”. Ou seja, são dois, com suas respectivas potências e torques bem definidos.
O novíssimo 1.5 16V Dragon de três cilindros mata o Sigma. Ele desenvolve, com etanol, 137 cv e 16,2 mkgf – números melhores do que o 1.6 16V. Infelizmente ainda não temos os dados com gasolina.
Já o 2.0 16V é o velho conhecido da linha Focus, mas ficou ligeiramente mais fraco. Com a sua injeção direta de combustível, ele ainda desenvolve ótimos números: 170 cv e 20,6 mkgf com gasolina e 176 cv e 22,5 com etanol.

Grade externa do EcoSport 2018 adota um sistema de controle que abre e fecha de acordo com a velocidade, garantindo economia de combustível
Visual
Se os motores e o câmbio automático confiável darão uma nova vida ao EcoSport, seu visual também muda para acompanhar a evolução mecânica. Enquanto a traseira recebeu um novo para-choque (estepe continua externo – solução que não gosto), a dianteira muda de maneira mais expressiva.
Inspirada no Edge e no Escape, o frente mudou o suficiente para ter “cara de novidade” – muito bem vinda, por sinal. O novo capô, grade maior e a ampliação do conjunto ótimo mantiveram o aspecto moderno e deixaram o modelo mais “parrudo”.
As mudanças também tornaram a aerodinâmica 11% mais eficiente (0,35 Cx). A grade externa adota um sistema de controle ativo que abre e fecha de acordo com a velocidade, garantindo maior economia de combustível. Os faróis de duplo refletor têm lâmpadas de xenônio e luzes diurnas de LED.
Na lateral, destaque para as rodas de 17″, bagageiro de teto de novo desenho e o friso cromado.

Painel e acabamento mudaram radicalmente no Ford EcoSport 2018, que agora tem câmbio automático de seis marchas
Por dentro – QUANTA DIFERENÇA
Agora, internamente, a diferença é absurda. Esqueça aquele painel bonitinho mas ordinário, com dezenas de botões e acabamento ruim. Inspirado no Focus, o nível aqui subiu e muito.
Quadro de instrumentos, volante e central multimídia: tudo veio do hatch médio. O painel tem tela colorida auxiliar de 4,2″ e exibe as informações do computador de bordo usando recursos gráficos e de imagem.
Já o acabamento melhorou, com peças de melhor qualidade e mais bem encaixadas, bancos mais ergonômicos e aconchegantes e uma boa evolução no conforto acústico.

Espaço interno continua apertado, mas bancos ficaram mais confortáveis. Repare na central multimídia “flutuante” (lado direito) do novo EcoSport 2018
Ainda apertado
Uma pena que o espaço interno não evoluiu. Com os mesmos 2,521 m de distância entre-eixos, o EcoSport continua apertado por dentro, principalmente para quem vai no banco traseiro.
Para melhorar nesse ponto, só com uma nova geração, ou seja, só daqui a, no mínimo, dois anos (mas, com certeza, mais).
O porta-malas diminuiu seis litros e agora tem 356 l. Para compensar, ele possui o que a Ford chama de “assoalho inteligente”: permite configurar o espaço em três posições, criando um porta-objetos inferior de 52 litros. Ele pode também formar uma plataforma plana com o banco traseiro rebatido, ampliando a área de bagagem para 1.178 litros. No total são 20 diferentes porta-objetos na cabine.
Equipamentos
Se o acabamento melhorou e o conjunto mecânico evoluiu, a Ford precisa caprichar na lista de equipamentos de série e nos preços para compensar o aperto (literalmente) do EcoSport.
A versão Titanium, topo de linha, virá equipada, de série, com sete airbags (dois frontais, dois laterais, dois do tipo cortina e um de joelhos para o motorista); direção elétrica, monitoramento individual de pressão dos pneus, câmera de ré; o alerta de ponto cego e tráfego cruzado; sistema anticapotamento; controles de estabilidade e tração; assistente de partida em rampa; faróis de neblina; sensor de estacionamento traseiro; piloto automático (cruise control) com limitador de velocidade; alarme e sistema de fixação Isofix para duas cadeiras infantis.
Completam o pacote Titanium freios (a disco na dianteira e a tambor na traseira) com sistema ABS com EBD, botão de partida, sensor de chuva, porta-luvas climatizado, porta-malas com abertura elétrica, acendimento automático dos faróis, vidros elétricos com acionamento a um toque, teto solar elétrico e ar-condicionado digital.
Resta saber como será a lista de itens de série das versões mais simples.
Central multimídia
Assim como no Fiat Argo, a central multimídia SYNC 3 do EcoSport fica em posição elevada, com sua tela “flutuante” de 8″ de alta resolução, sensível ao toque. Fabricada pela Sony, ela conta com vários aplicativos, tem comandos de voz e nove alto-falantes.
Além do volante multifuncional revestido em couro, o EcoSport tem compartimentos para acomodar smartphones, duas entradas USB no console e duas tomadas de 12V.
Resumo da obra
Se o espaço interno vai continuar interior aos concorrentes diretos e o visual evoluiu menos do que o esperado, o novo interior, os motores 1.5 e 2.0 mais modernos e eficientes e o câmbio automático de seis marchas darão vida nova ao EcoSport.
Mas a Ford precisa oferecer, desde as versões de entrada, uma lista de equipamentos de série mais recheada, de modo a tornar o seu SUV mais atraente. Além disso, a marca precisa ser muito cuidadosa em relação aos preços do seu modelo.
Sobre isso, Lyle Watters, presidente da Ford América do Sul, disse: “o EcoSport vai oferecer os preços mais competitivos entre os SUVs de nova geração, tanto nas versões de entrada como nas mais equipadas”.
Se for verdade, ponto para a companhia. Se não for, o modelo pode até melhorar as suas vendas no Brasil, mas ficará ali brigando pela quarta posição, atrás do Honda HR-V, Jeep Renegade e Hyundai Creta – sem contar o Jeep Compass. Vamos esperar para ver.



